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Posts Tagged ‘Diamantina’

Será uma ilusão nossa desejar viver totalmente sem ilusões nesse mundo? Será que somos capazes, mesmo, de sempre driblar e desmascarar as aparências? Ou melhor: é possível viver sem elas? Talvez a vida fosse bem melhor se vivêssemos sem nenhuma fantasia, mas foi um mundo de ilusões que, pelo menos até agora, conseguimos construir.

Gonçalo do Rosário Silva não tem dúvida: “De ilusões se vive”. Morador de Diamantina (Alto Jequitinhonha – MG), ele nasceu em São Gonçalo do Rio das Pedras, distrito de Serro (Alto Jequitinhonha – MG), em 1948. Já trabalhou como vigilante, trocador de ônibus, vendedor de livro. Para ele, não tem outro jeito. Se não tiver a tal da ilusão, fica difícil dar prosseguimento à vida. Ele explica: “O que dá força de, por exemplo, você trabalhar é pensar que, com o seu trabalho, vai poder adquirir uma casa, vai poder construir alguma coisa pra sua família. Bom, mas isso no meu ponto”.

A função das ilusões, para Gonçalo, é dar movimento à vida e não paralisá-la: “Viver não é só comer e dormir! Às cinco e meia da manhã já tô pronto pra o que der e vier. Quer coisa mais bonita do que acordar cedo e ver a claridade?”.

As ilusões, no seu “ponto”, não dão conta de dissimular os infortúnios. “Pensa bem uma coisa na vida: têm os momentos bons, mas eles são muito mais passageiros do que um grande sofrimento, tá na cara que é! Pra mim, sempre foi assim. Agora, tem gente que acha que sofrimento e alegria é uma festa só”, diz.

Apesar de atribuir aos sonhos a razão de nos mantermos vivos, Gonçalo não deixa de admitir a responsabilidade de como devemos lidar com eles. Ao explicar a relação do homem com o mundo, não faz rodeios. A vida, afirma, “tem apenas dois lados: o bom e o ruim. O mau caminho, se quiser, você resiste. Mas aí tem a fraqueza, não é? É que, às vezes, o sujeito leva pra mil anos um trenzinho de nada”.

Gonçalo tem em mente um caminho para a felicidade, entretanto acha inevitável que, em alguns momentos, ela esbarre na realidade da vida. Pai de cinco filhos, ele pondera: “Para ser feliz, a pessoa tem que passear, distrair, mas tudo numa boa também. Cê não vai distrair se a família está com os problemas mais sérios. Mas isso no meu ponto, porque cada um pensa de um jeito”.

No seu jeito de pensar, são os sonhos que fazem nos lançar ao mundo, só que eles não podem ignorar os rumos da vida. “Olha pra saber: de ilusão se vive, mas a realidade tem que ser presente”, aconselha. Não há outro caminho: para que uma não esmague a outra, precisam conviver em harmonia. Até porque, os sonhos não são capazes de impedir as imposições da vida: “No fim, o tempo passou e o sujeito não fez nada, talvez não adquiriu nada, porque viveu só no sonho. Sonhar é bom, mas se o sonho não pode ser realizado naquele momento, parte pra outro”.

De sua experiência, Gonçalo conclui que, por mais que as ilusões sejam necessárias, não dá para fugir daquilo que é, de fato: “A verdade tem que ser dita e não tampada com uma peneira. Uai, o que é que eu posso fazer?”. Os sonhos só nos levam para frente quando descem ao chão e participam do movimento do mundo. Insistir em viver só no sonho ou só com o pé na terra é insistir no erro. E o erro, diz Gonçalo, não tem vez: “Pensa bem uma coisa na vida: o errado não tem voz ativa. O errado nunca teve, não é? Eu acredito que sim”.

Uma coisa é admitir que o errado não tem voz ativa, outra é tentar consertá-lo. Gonçalo observa que o mundo atribui às aparências uma grande importância. Isso, muitas vezes, cria situações de desigualdade. Porém, ele reconhece a impossibilidade de controlar as opiniões alheias: “O cara chega mal-atrapalhado e o outro chega mais bem-arrumado, muito mais bem tratado do que aquele de chinelo de dedo no pé. Talvez a vida não está oferecendo pra ele, né? Esse que tá bem vestido, com certeza, é mais respeitado. Não acho que isso seja certo, mas nessa vida a gente acha e outros acham que não é. Como se diz: a gente não pode mudar a ideia de ninguém”.

Embora as aparências tenham um grande peso nesse mundo, ele não aprecia vestir essa fantasia: “Não adianta eu querer ser aquele que eu não sou. Isso não! Pra que eu vou ser? Não vai resolver os problemas”.

Para Gonçalo, não adianta querer ser aquele que não é e nem fingir não sentir aquilo que se sente. O bem e o mal rodeiam um ao outro até mesmo quando o passado é relembrado. “Você lembrou, é bobagem dizer que não. Quando você lembra do bem, lembra do mal também e vice-versa. Não tem de onde escapar”, observa.

Gonçalo encontrou uma solução para viver bem no labirinto que é esse mundo. Já que não tem de onde escapar mesmo, o jeito é tornar a experiência da vida mais agradável: “Ô coisa boa que é contar mentira. Desde que esteja rindo e brincando, sem prejudicar a família nem a moral de ninguém, vamos contar bobagem, vamos rir que depois que passou, acabou”.

Rir da vida não significa, para Gonçalo, fazer pouco dela. Pelo contrário. É reconhecer nossa incapacidade de controlar os caminhos do mundo. Além do mais, como ele diz: “A vida é um sonho, tudo é passageiro mesmo, nada vai durar para sempre. Só a eternidade é para sempre”.

Na fronteira entre o que aconselha a razão e o que vibra a emoção está, “no ponto” de Gonçalo, o caminho: “Cê é cabeça e coração, os dois quando falam juntos é bom demais”.

As dores, muitas vezes, decorrem dos sonhos frustrados pela realidade. Gonçalo, entretanto, não acha que isso torna a experiência da vida sem valor – “Viver é bom demais”, diz. Para ele, o que torna essa experiência sem importância é justamente fugir das condições a que estamos inevitavelmente submetidos desde que nascemos: a necessidade de buscar a felicidade e a privação de controlar a realidade. É a partir das dores, aliás, que construímos nosso caminho: “O sofrimento ajuda a viver”. Mesmo porque, não temos
saída: “Ilusão é a vida toda”.

Gonçalo, em Diamantina

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No chão de sua vida, Ambrosina Dias da Cruz costura virtudes e faz com que uma se equilibre na outra. Da humildade que não a deixa se esquecer da importância de uma terra firme para caminhar, colocando-a em contato com seu próprio valor, nasce a simplicidade que a ensina a não necessitar ser elogiada: “Tenho medo do elogio, de ficar orgulhosa. Eu gosto de reconhecimento e isso é diferente”.

Ambrosina nasceu no ano de 1917, em Diamantina (Alto Jequitinhonha – MG), cidade onde mora. Ela aponta como razão de sua vitalidade e longevidade a postura ativa que mantém desde menina: “Minha vida foi cheia de serviço, por isso estou bem de saúde”. Já foi doceira, costureira e “até pegava na enxada”. Nas atividades na Igreja encontrou o trabalho que lhe traz satisfação. Lá, aos nove anos de idade, começou a cantar. Ajudou, com as Pastorinhas de Diamantina, a arrecadar fundos para construir a Capela de Nossa Senhora da Consolação. Apresentando-se nas ruas da cidade, as meninas-pastorinhas cantavam e dançavam, acompanhadas pela orientação e pelo acordeon de Ambrosina. O grupo terminou em 2009, mas pôde deixar registrado, em CD, um pouco do seu trabalho. Os 50 anos em que permaneceu com as Pastorinhas não abandonam suas lembranças: “Tenho muita saudade. Eu gostava demais”.

Durante 50 anos, Ambrosina se apresentou com as Pastorinhas nas ruas de Diamantina

De seu otimismo, ela colhe o prazer para viver. A vida, afirma, “é cheia de coisas boas, é só saber levar”. A lucidez que sustenta sua visão otimista lhe dá, também, coragem para não temer o fim. “Quando alguém morre, penso: foi?! Eu também vou. Ah, pode falar: a parte real de nossa vida é a nossa irmã morte. Na hora que você nasce, você já está morrendo. Deus põe na mão da gente uma vela da proporção da vida que vamos viver. Quando acende a vela, já estamos morrendo”, diz.Para quem é senhora de si mesma, servir o outro é uma grata oportunidade de expressar e dividir seu afeto, além de poder se livrar da prisão do egoísmo: “Me fechar, me trancar em mim, isso não! O que sei e tenho, eu divido. Ah, o prazer de servir: que alegria me dá!”.

Ficar trancada em si mesma não apenas tira o prazer de servir, como também pode impedir a convivência com uma postura que Ambrosina considera fundamental: “Dizer a verdade, somente a verdade”. É saindo de dentro de si, é não escondendo dentro dela fraquezas que ela deixa sua naturalidade se expressar: “Ah, eu era ranzinza. Não vou falar que só sou santa não. Eu também sou desconfiada, desapontada”.

Desconfiada de um lado, porém confiante por outro, Ambrosina repele a hesitação que duvida do êxito. Quando nos lançamos a uma empreitada, ela ensina, “não é pra dizer: ‘se der certo’, tem que tirar o ‘se’. Tem que dizer assim: ‘vai dar certo!’”. Como amiga de sua terra e artista de rua, foi ganhando o reconhecimento de onde tira estímulo para, no cultivo de um modo simples de viver, colher vida do seu chão.

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